Lembrei-me de ti, da disposição afetiva de nos uni, das coisas que juntos já passamos – não foram poucas as situações e aventuras.
Somos amigos há tanto tempo... Lembra-te, quando nos conhecemos?
E de nossas bicicletas, consegues ainda visualiza-las na memória? Eram meio velhas, mas que velozes! E nos dois novinhos e rápidos como nossas magrelas?
Eu de minha parte não esqueci o momento que motivou esse sentimento chamado Amizade.
Também não esqueci àquele incidente, quase fatal para a boa vizinhança de nossos pais que enquanto, eles brigavam, nós dois, nos conhecíamos – Recordo-me do sangue que escorria em tua perna, corte feio aquele, mas a dor que eu sentia... Infeliz galo que a muitos incomodou, durante muitos dias. Como foi difícil conter a minha raiva ao ver bicicleta ganhada no natal toda retorcida, naquela hora aniquilara-se de imediato o sentimento de pena que senti ao ver tua perna toda sangrenta. Naquele momento fomos colocados nos famosos fuscas de nossos pais, cada um com seu respectivo carro - o meu pai estava super bravo não sei se pela magrela ou quem sabe, porque eu não havia brigado contigo; talvez por tê-lo tirado da sua concentração frente ao radio na hora do seu futebol. Minha mãe ao me ver naquele estado ficou muda, chegando quase a desmaiar não fosse os gritos do meu pai pedindo que ela encontrasse, as chaves, do carro - que para variar, estavam no bolso dele.
Fui ficando estranho, eu estava apavorado, e nada mais lembro... Quando acordei me encontrava numa cama desconhecida e ao meu lado minha mãe. Ela como de costume, meiga e gentil.
- Olá, anjo!
Quis lhe falar, todavia ela me impediu colocando o indicador sobre os meus lábios, silenciando-me.
Ao seu lado meu pai, com àquele seu modo de ser, era durão e dono de si.
- E aí campeão tudo bem?
Com àquele seu jeito não esperava outra resposta - si não àquela que lhe contentaria a arrogância de super homem.
- Sim, estou pronto pra outra...
Senti-me novamente diferente e fui fechando os olhos devagarinho, entre esse instante e outro qualquer ainda pude ouvir meu pai falando à minha mãe - O Renato está liberado, dez pontos levou na perna, nada grave segundo os médicos.
Não sei quanto tempo dormi e por quanto permaneci naquele lugar, porém lembro-me de tua mãe e de ti, que foram ali me ver. Acho que devemos às nossas mães nossa amizade souberam contornar os problemas e sublimar as dificuldades. Já os nossos heróis mantiveram-se indiferentes – pois homem que é homem não deve mostrar suas emoções. Pobre de espírito era o meu pai.
Estou aqui ao lado do meu filho. E alguns detalhes de nossa grande amizade pude rever e senti tua falta meu amigo. Encontra-se ele no mesmo hospital que tu vieste me visitar a 43 anos, onde de fato começou nossa amizade.
Queria eu fosse um simples esbarrão de bicicletas. Tudo me leva a crer ele que não terá mais grandes oportunidades para pedalar ou para fazer grandes amizades tal qual a nossa.
Renato meu amigo, não me envergonho em dizer-te que estou chorando, que estou sem forças, que tenho medo. Compadre, meu menino está a morrer. Eu velho, entretanto como criança por ele soluço e temo.
- Pai...
- Sim, campeão.
- Você, tá chorando? Já sei caiu um cisco no seu olho. Foi isso, certo?
- Não, nada disso eu estou chorando de verdade, por dois motivos - o primeiro e maior é que tenho aqui à minha frente à alegria de minha vida, pela qual chego a chorar de felicidade – você meu filho muito querido, meu campeão e o segundo não menos importante que o primeiro é que especialmente hoje me veio à memória os teus dias de bebê e a minha infância, você está hoje com 18 anos da vida. Já contei a você que quando eu tinha 10 anos de idade me hospedei neste hotel 5 *****.
- Cinco estrelas... Riram-se
- Não pai... Lembro-me apenas que o vovô sempre dizia que homem, que é homem não chora e tampouco demonstra aos outros o que está sentido?
- Pois eu lhe digo campeão, infeliz foi o homem que aos seus escondeu suas lágrimas, que nunca chamou o filho de meu amor e que não teve um amigo para chamar de irmão.
- Pai...
- Fala meu filho.
- Quero que me leve para fora quero ver a minha moto... Aqui tudo está ficando escuro, PAI...
Meu caro amigo, meu irmão, se não fosse minhas lágrimas a aliviar-me a alma insuportável seria essa dor que dilacera em qualquer homem o coração. |