Esta é a carta que talvez nunca chegue, porque é a despedida que jamais poderá ser.
Na lembrança, as últimas palavras que ecoavam a esperança de emitir ainda muitas outras e contar casos do passado e de um futuro próximo -ele, com o tom grave, forte e confiante, voltaria para dizer que o pior já havia passado; ela, com o tom alegre, jovial e leviano, lhe diria que tinha certeza que assim seria.
Porém, a alvorada resplandeceu e a certeza não ficou, sua âncora se perdeu e a confiança transformou-se na vontade de não compreender o que estava sendo escrito já há algum tempo. A esperança se tornou a espera por um brutal desengano. É que não éramos nós que escrevíamos esses parágrafos ininteligíveis e não tínhamos sequer mais influência sobre a evolução da história.
Um silêncio esmagador galopara a madrugada e foi como se tivesse levantado todo o pó do universo, nublando a visão de um mundo interior. Sempre tentei adiar as partidas com idéias mirabolantes, pensamentos fervorosos, abraços intermináveis, relógios atrasados, contando dias regressivamente até o "renascer", contando mentiras para a única verdade existente, trapaceando a memória, trapaceando-me.
Assim foi, pai, quando te vi desaparecer na estação, deixando para trás a neve que não pôde reter teus passos, e nem os meus, pois o chão fugiu de mim, o tempo parou ali e eu já não era mais eu.
A neve cobriu os telhados da manhã, deixando vestígios nas vias férreas, nos casacos de pele, nos pinheiros, nas brincadeiras de criança, na pele. Foi o inverno mais gélido que já existiu, quando o sol desterrou-se, no outro lado mundo. E a alma arrefeceu, órfã de tua luz e de teu calor.
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