Naquele dia passeei com ele para mostrar-lhe a cidade. Uma cidade que mal conhecia. Tantos dias, tantas esquinas, tantas casas...andando pelas ruas, sem verdadeiramente notá-las, o pensamento sempre esteve no mais baixo,, do lado de lá...Quando se caminha no cotidiano, muitas vezes se tropeça numa mesma pedra, sem notar sua textura, sua cor, sua dor. Mas nessa ocasião, me sentia vivendo num lugar novo, informando-me sobre seus monumentos, seus novos edifícios e o quase nada que restou depois da guerra: talvez aquela pedra com a qual já estávamos acostumados a topar. Ele, por ser uma pessoa carismática, cuja simpatia transborda naturalmente pelas palavras e sorrisos, atraía a atenção das pessoas e as contagiava com seu bom humor e comunicação.
Como todo curioso que quer explorar o desconhecido mais corriqueiro, apontou para aquela estante azul no meio da calçada. Uma estante já velha, abarrotada de livros já velhos. Paramos maravilhados diante da descoberta, como criança que acaba de aprender a andar. Li as letras pintadas acima, no azul da estante: Biblioteca Pública.
Incrível haver uma tão mínima biblioteca, administrada por ninguém, feita de uma única estante, onde autores, títulos, estilos se mesclan, sem bibliotecários, sem ordem, somente os leitores que através de sua ânsia e "generosidade" dôam seus livros, para o benefício de novos leitores, e pegam emprestado novos livros de seu interesse, ali deixados por outros. O fato de devolvê-los depois é questão de ética de cada um.
O que se podia notar é que a biblioteca estava cheia!...de livros. Tive a curiosidade de saber se permanecia ali também durante o inverno, sob a neve, com as portas abertas de suas "prateleiras". Abrimos as portas da biblioteca e começamos a procurar indisciplinadamente; achamos vários títulos, até Fernando Pessoa e suas sombras estavam ali. Achei livros de gatos, astrologia, culinária; literatura, manuais, infantis, etc. (não sei como não achei um diário!). Perguntei a três pessoas que passavam no momento, também surpreendidas com nossa descoberta, sem saber eles próprios do que se tratava. Só uma mulher soube me responder que essa era a única biblioteca pública, realmente livre, da cidade. Um desses idosos céticos me disse que não sabia como ainda havia tanto livro ali, e ainda perguntou-nos, o abusado!, se íamos vendê-los em uma feira de "pulgas", dessas feiras que vendem antigüidades, badulaques velhos. Eu ri, com esse meu jeitinho pseudo-irônico e disse "que boa idéia que o senhor teve!"
Peguei dois livros que até hoje não devolvi, tampouco os vendi. Estão aqui, esperando voltar para lá, para seu antigo ninho...Meu amigo foi embora e a biblioteca azul continua naquela mesma calçada, do lado de lá da praça.
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